A curiosa delação de Joesley Batista – politicas.info
Artigo

A curiosa delação de Joesley Batista

Joesley e Sergio Machado ganharam muito dinheiro no governo do PT e, na hora de delatar, entregaram o PSDB e o PMDB

Projetado pelo Freepik

Desde que li, na noite da última sexta-feira, textos da delação de Joesley Batista não consigo esquecer da delação do Sergio Machado. Ambas guardam muitas semelhanças. Algumas delas:

  • Se baseiam igualmente em grampos feitos pelos próprios delatores, de forma unilateral com flagrantes montados;
  • Tanto Machado quanto Joesley marcaram encontros com o objetivo premeditado de flagrar seus interlocutores em diálogos comprometedores;
  • Incitaram seus interlocutores a se incriminar, sugerindo as pautas a serem discutidas;
  • Tanto um quanto outro grampearam apenas políticos do PMDB e PSDB;
  • Utilizaram os áudios produzidos por eles mesmos para tentar um acordo vantajoso; e
  • Ambos estão soltos. Machado em sua mansão; Joesley em NY.

O que isso significa?

Impossível responder sem falar unicamente em tom de achismo. Mas vou me permitir esse devaneio.

Sabemos que, nessa altura do campeonato, para um criminoso conseguir um acordo com a Justiça é preciso entregar conteúdo relevante. Não adianta chegar lá e confessar que recebeu dinheiro do Marcelo Odebrecht, esse já está preso. Essa postura é normal na estratégia de delação premiada, e é justa pois os benefícios dados ao delator são muito vantajosos, seria injustiça deixar de aplicar as penas legais “tradicionais” para conceder regalias a troco de nada. Sendo assim não é estranho o fato de o MPF exigir nomes novos para poder fechar um novo acordo de delação premiada.

Pensando desse modo não é nada estranho imaginar até mesmo que o MPF tenha atuado (como atuou) de forma a auxiliar criminosos a montar flagrantes para outros criminosos. Soubemos nessa semana que um procurador da Operação Greenfield foi infiltrado na JBS para auxiliar Joesley na produção das provas. Absolutamente normal, e louvável.

Continuando nessa linha… também não é de todo estranho que os nomes que estejam sendo pegos nos flagrantes montados sejam do PMDB e do PSDB, afinal o PT e o PP já tiveram tantos políticos pegos que é até difícil conseguir lembrar de algum que já não esteja sendo processado criminalmente.

 Somos levados a pensar então “mas porquê não flagrar também os políticos do PT? Afinal nenhum deles foi preso até hoje.”

Não foi e nem será. E isso por causa da postura do STF: cada um dos três poderes que resolva seus próprios problemas.

O STF adotou o mote “as instituições estão funcionando plenamente” desde os tempos do ministro Ayres Britto. Esse mote significa que o STF não vai atropelar a prerrogativa do Legislativo nem do Executivo, e hoje, o foro privilegiado impede a prisão de um político em exercício de mandato (a não ser por crime em flagrante, como o do senador Delcídio).

Cármen Lucia e Barroso já falaram – replicados pelo procurador Deltan Dallagnol –, “o foro privilegiado tem que acabar”.

Quando Janot pediu a prisão do senador Aécio Neves eu falei no Twitter que não acreditava que o STF iria autorizar a prisão do senador. Algumas pessoas não entenderam e me criticaram… Fachin afastou Aécio do exercício do cargo mas não autorizou sua prisão.

A decisão não poderia ter sido outra. Está completamente de acordo para com a postura atual do STF. Como prender um senador em exercício de mandato com o foro privilegiado em vigência? Só o Legislativo pode decidir isso e, justa e unicamente por isso Fachin devolveu a batata-quente pro Congresso. Querem prender um senador? Então que cassem seu mandato!

O que Fachin poderia fazer, ele fez. Afastou o senador do cargo, apreendeu seu passaporte e o proibiu de ter contato com outros investigados. Mais que isso, só se o Legislativo avançar com a PEC do fim do foro privilegiado.

Enfim, o que nos falta não são provas cabais contra os políticos, o que falta é acabar com o foro privilegiado. Sem ele não tem grampo que irá nos salvar.

Clique para comentar

Envie-nos uma pauta, esclareça sua dúvida ou corrija/acrescente informações:

Mais Lidas

Para o Início