Uma enorme fatia dos brasileiros vive sob censura e luta diariamente contra ela – politicas.info
Primeira Pessoa

Uma enorme fatia dos brasileiros vive sob censura e luta diariamente contra ela

Se sua opinião não é a que eles querem ouvir, vão tentar te censurar – e eventualmente conseguirão te calar

Foto: Anais Bnaughty

Eu já tinha sido xingado de muita coisa, mas “golpista” era novidade em novembro de 2014. O impropério não foi direcionado especificamente a mim, mas estava lá nas entrelinhas. E não veio de partidos ou mesmo lideranças políticas, mas da grande imprensa nacional, que retratou como defensores da volta da ditadura os manifestantes que foram às ruas exigir o impeachment de Dilma Rousseff.

O tempo me daria razão, não sem muito esforço. Mas a mágoa ficou. E só se ampliaria na medida em que os ataques – diretos e indiretos – se intensificavam no intuito de nos calar. Num primeiro momento, o mercado publicitário negou mídia a qualquer publicação que destoasse do discurso predominante. No segundo, chafurdaram a vida privada de qualquer um que ousasse forma opinião tão destoante. No terceiro, criaram listas de “fake news” nas quais incluíam por critérios arbitrários e sem sentido qualquer veículo de viés liberal ou conservador. Por fim, atacaram o único modelo de negócios que surtia efeito – a veiculação de anúncios por intermédio de programas filiados.

Nesse período, acompanhei a luta de meia dúzia de projetos. Só a minoria segue de pé, pois guerreiros. O resto faliu. Falavam para milhões, mas ganhavam centavos. Em paralelo, acompanhei o bombardeio aos formadores de opinião. Se um lado podia defender genocidas sem culpa, o outro não podia errar a grafia de algo publicado às pressas no Twitter. E paga até hoje por comentários infelizes feitos há anos.

O Ministério Público Federal inventou o “abuso da liberdade de expressão” para seguir perseguindo Rachel Sheherazade por opinião emitida por ela ainda em 2014. Maria do Rosário, por sua vez, usa a estrutura pública para calar Danilo Gentili. Sem cerimônias, Silvio Santos confessou no ar que cedera a pressões e podara a dupla. Mas para essas forças políticas isso não será suficiente enquanto não perderem o emprego – ou mesmo sejam presos.

O caso que mais me incomodou, contudo, foi o de Gabriel Pinheiro, um cara que você nem precisa conhecer, muito menos concordar com ele. Polêmico e escrachado, acumulou algo próximo dos 30 mil seguidores no Twitter. Como? Militando. Por vezes, perdendo a razão, o que poderia justificar um bloqueio de seu perfil. Mas a queda só veio após o nome surgir em levantamento da FGV como um dos principais críticos de Lula no depoimento prestado a Sérgio Moro. Estranho.

Motivo alegado pela rede social: o brasileiro havia infringido uma lei francesa contra a islamofobia e por isso teria a conta suspensa permanentemente. E como se dera a infração? Ao noticiar que um francês evitou ser linchado por muçulmanos no que mostrou que estava armado.

Não faz sentido.

No dia seguinte, Gabriel criou uma nova conta, recuperou alguns milhares de seguidores, voltou a militar, mas logo foi bloqueado novamente. Até o momento da redação deste texto, prometia não criar um terceiro perfil.

Eles venceram mais essa.

Mas isso não pode continuar assim.

Fonte: FGV

1 Comentário

1 Comentário

  1. Dagmar Bastos

    8 de junho de 2017 no(a) 17h15

    O texto faria mais sentido se olhássemos o levantamento da FGV sobre “DEBATE SOBRE A LEI DE MIGRAÇÃO NAS REDES MOBILIZA DISCURSO DE ÓDIO”. Ligaria, inclusive, com o motivo alegado pelo twitter.

    Se liberdade de expressão leva a direitos e deveres, estamos longe de compreender isso.
    Pontuo que sou contra a censura, mas também pontuo que quem não demonstra com sabedoria não merece holofote.

    Holofote pode cegar quem não sabe lidar com a intensidade, ou se preferir: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

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