Se sua arte não respeita as regras mais básicas de convivência, ela não é arte, é vandalismo – politicas.info
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Se sua arte não respeita as regras mais básicas de convivência, ela não é arte, é vandalismo

Moça picha muro já bastante pichado.

A arte não agride. A arte não prejudica. A arte não torna ainda mais difícil a vida de quem já não leva uma vida fácil.

Foto: Pruzi

Arte é uma forma de comunicação. E, como forma de comunicação, deve gozar dos mesmos direitos que a liberdade de expressão goza.

Contudo, arte é bem menos importante do que o artista adoraria que fosse. Pois, na ânsia por comunicar-se de uma maneira mais lúdica, finda prejudicando o entendimento da mensagem, ainda que torne seu consumo mais prazeroso. Cabe discussão também sobre o conhecimento que o emissor possui a respeito do tema discutido em sua obra. Um minuto a mais dedicado à forma como ele transmitirá a mensagem é um minuto a menos aprofundando-se no assunto debatido.

Enfim… Arte é mais forma do que conteúdo.

Mas não sou do tipo que a limita à produção dos seus mais virtuosos representantes. Aceito como arte aquilo apresentado tanto pela mais cara das orquestras como o mais pobre dos repentistas. E, claro, acredito que não se limita à classe artística: gastronomia é arte; urbanismo é arte; a forma como Steve Jobs desenvolvia dispositivos tecnológicos era arte; um código que faz o sistema rodar sem qualquer falhas, acreditem, é arte; uma constituição bem escrita é arte; o modo como o proprietário da Urca do Tubarão engarrafa a cachaça na sua frente é arte; e assim por diante.

Mas há alguns limites. Eu, por exemplo, acredito que ela pode incomodar. Em alguns casos, acho que só funciona, ou funciona melhor, quando incomoda. Humor, prefiro quando sarcástico. Punk rock a favor do sistema soa algo ridículo. E sempre curto quando o filme me embrulha o estômago.

Contudo, a arte não pode ser uma agressora. Pelo simples fato de que eu e você não podemos ser agressores. E a arte não é melhor do que eu ou você. Assim como a gente, ela deve entender que o limite da liberdade dela é o limite da liberdade de quem não quer consumir o que ela tem a oferecer.

Um baterista que ouse ensaiar às quatro da manhã em cima do meu apartamento receberá a devida visita da polícia. Assim como o boteco que ouse bancar um tecladista na rua de trás em horário inapropriado. Vale também para o repentista que queira interromper o meu almoço, o cordelista que insiste para que eu aceite o poema dele no meio da rua, a atriz que tumultue com uma performance qualquer evento que eu organize, e assim por diante.

Por que, então, aceitar como arte as palavras ou pinturas publicadas em um muro sem qualquer autorização dos responsáveis por aquela parede? E, sim, estou colocando no mesmo grupo as pichações e os grafites. Se você é capaz de fazer os mais belos dos painéis, não faltará quem queira seu trabalho exposto na própria edificação, por vezes pagando caro por isso.

Quando montei minha última banda, em nosso melhor ano, fizemos 30 apresentações. Porque encontramos 30 pessoas interessadas em nos convidar para um palco. Mas foi o melhor dos anos. No pior, não passamos de 8 “shows”. Isso significa que ficamos 357 dias sem uma única oportunidade de apresentar nossas canções.

Tenho amigos, contudo, que conseguiam trabalho em mais de uma centenas de datas. Porque ou eram mais talentosos, ou mais esforçados, ou ambos. E é assim que o jogo funciona. Oportunidade não é algo que te dão, é algo que você conquista com suas liberdades. Mas conquista respeitando as liberdades dos outros.

Um muro pichado passa uma mensagem. A mensagem de que aquele ambiente não possui a devida segurança. E isso leva insegurança a quem frequenta o espaço pacificamente. E segurança a quem quer prejudicar aquele espaço. Um condomínio pichado no seu último andar é uma mensagem a qualquer bandido: a portaria deste prédio é ineficaz, se é que existe.

Todas estas mensagens somadas desvalorizam o edifício, a vizinhança, o bairro, e até a cidade. Como os bairros ricos terão caixa para limpar a sujeira, os danos serão mínimos. E o prejuízo de fato recairá sobre os mais pobres, que verão suas pequenas propriedades desvalorizadas, viverão o estresse da poluição visual e conviverão com o medo no muro da própria casa.

A arte não agride. A arte não prejudica. A arte não torna ainda mais difícil a vida de quem já não leva uma vida fácil.

Se o seu trabalho não respeita estas regras básicas de convivência, sinto dizer, você não é um artista, você é um vândalo.

Texto originalmente publicado no Implicante.Org

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