O dia em que vi universitários comemorando uma tragédia histórica – politicas.info
Primeira Pessoa

O dia em que vi universitários comemorando uma tragédia histórica

Os mais próximos sorriam. Alguns se abraçavam. Ao menos dois deles pulavam de alegria.

Foto: Tulane Public Relations

Naquele semestre, eu pagava algumas cadeiras à noite. Esperava encontrar nos corredores que levavam para as salas de aula alguns amigos em choque semelhante ao meu. Mas a surpresa seria incômoda. Os mais próximos chegariam sorrindo. Alguns se abraçariam. Lembro de ao menos dois deles pularem enquanto se abraçavam. E de o grupo agendar um “happy hour” para o término dos estudos. O objetivo era “beber” o ocorrido.

Nem todos reagiam assim, claro. Eu mesmo me limitei a sorrisos amarelos e risadas constrangidas. Sentia um covarde medo de contrariá-los. Talvez por temer que tudo não passasse de galhofa, e eu seria o chato a não perceber a piada. Uma piada que uma grande amiga não compreendia, ao confidenciar-me que estava muito incomodada com o clima inesperado. E eu confesso que nem lembro a resposta que a dei. Meu receio hoje, anos depois, é de que de alguma forma eu os tenha defendido.

Iniciada a aula, achei que as coisas voltariam ao curso natural. Não lembro o nome do professor, nem do aluno que o interrompeu ainda nos primeiros minutos. Mas jamais esqueci o rosto deste. Ainda seria capaz de apontá-lo em uma lista de suspeitos. Quanto ao que disse, preciso puxar de memória, pois, claro, não tomei nota. Que era uma grande dia. Que precisava prestar uma homenagem. Que o “império” estava sendo derrotado. Que se sentia muito grato a quem chamava de grande líder: Osama bin Laden.

Sim, era a noite do 11 de setembro de 2001.

Foi a última vez que o vi sorrindo. Em verdade, só lembro dele em um outro momento, três anos depois. Numa noite em que minha maior preocupação era esconder o par de tênis que surgia por baixo da beca. Não sabia, era comum em solenidades do tipo calçar sapatos. Mas relaxei ao notar que um outro companheiro de formatura cometeria crime fashion ainda pior, pois chegara por sobre um par de sandálias e das mais gastas. Sim, era o membro do fã clube da Al-Qaeda.

Enquanto todos sorriam por superarem enfadonho ensino superior brasileiro, ele estava mais sério do que nunca, o que, destaco, era-lhe característico. Eu, numa arrogância pseudo-intelectual típica da minha juventude, perguntava-me se repetiria no terceiro grau o feito do segundo, e na cerimônia de formatura seria chamado ao palco como estudante de melhor desempenho da turma. Mas, ao anunciarem o laureado, quebraria a cara contemplando aquele par de chinelos se arrastando até o prêmio.

Ele receberia a placa com o desprezo de quem preferia ativar ali um colete suicida. Mas posso jurar que o vi, minutos antes, de alguma forma celebrar o recebimento do canudo com um gesto que eu só entenderia um década depois: o mesmo punho cerrado exibido por José Genoino e José Dirceu quando presos ao término do julgamento do Mensalão. Ou ainda o que a Folha de S.Paulo estamparia na capa em 27 de outubro de 2014, comemorando a reeleição de Dilma Rousseff.

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