O jornalismo levou ao menos 12 anos para reconhecer que a Venezuela virava uma ditadura – politicas.info
Comunicação

O jornalismo levou ao menos 12 anos para reconhecer que a Venezuela virava uma ditadura

Não é papel do “jornalismo de qualidade” antever tragédias humanitárias como a proporcionada por Nicolás Maduro?

Foto: Governo da Venezuela

Um breve passeio pelos perfis utilizados por jornalistas nas redes sociais confirma o fenômeno. Não raro, a frase “RT não é endosso” surge no breve texto de apresentação do profissional. Tentam, assim, conquistar uma blindagem contra acusações de que estariam em concordância com as informações que reportam. Mas será que é só isso mesmo?

Porque há um outro fenômeno também perceptível neste meio. Por ele, dizeres com nortes ideológicos semelhantes ao do comunicador costumam ser compartilhados sem ressalvas. Quando a ideia destoa daquela estampada na bandeira, a informação chega ao público já acompanhada de uma contestação, de uma negação por parte do “outro lado” ou mesmo com um “fact-checker” carimbando um “falso” no pronunciamento.

Nada disto foi utilizado em 29 de setembro de 2005 na Folha de S.Paulo. A manchete simplesmente ecoou a ideia defendida pelo presidente da República: “Lula diz que Venezuela tem democracia ‘em excesso’“. Nos seis parágrafos, nada foi contestado, nenhum “outro lado” foi ouvido, nem “fact-checker” carimbou nada. Em verdade, a notícia soou um release distribuído por uma assessoria. Estaria o jornal paulistano endossando a tese do petista? Ou “RT” não era “endosso”?

As entrelinhas, no entanto, entregavam o contexto: já em 2005, segundo o próprio Lula, Hugo Chávez havia sido “demonizado”. Em resposta aos ataques, o brasileiro defendeu que ninguém poderia acusar a Venezuela de não ser uma democracia. E concluía: “Poder-se-ia até dizer que tem em excesso“.

Quase doze anos se passaram. Na verdade, exatos 4.328 dias. A Folha de S.Paulo apareceu falando de si na terceira pessoa: “Folha passa a tratar Venezuela como ditadura“. E justificou assim a escolha:

“De acordo com o Manual da Redação, o termo se aplica à ‘dominação de uma sociedade por meio de um governo autoritário exercido por uma pessoa ou um grupo, com repressão e supressão ou restrição de liberdades individuais‘.”

Um dos jornais mais importante do Brasil precisou de uma dúzia de anos para perceber aquilo que já parecia claro aos críticos de Hugo Chávez ainda em 2005. Um jornalismo realmente de qualidade não teria antevisto o movimento e alertado a opinião pública? Ou ele precisaria aguardar uma nação inteira ser destruída para reconhecer o mal que faziam a ela?

A correção do erro merece algum reconhecimento. Ao mesmo tempo em que se faz digna do puxão orelha: a justiça que tarda é falha. Centenas de vítimas do bolivarianismo perderam suas vidas sem tomarem conhecimento dela. E mais: “RT”, quando não está claro o posicionamento contrário daquele que compartilha a informação, é, sim, endosso. O “jornalismo de qualidade” deveria pensar duas vezes antes de reverberar qualquer sandice.

Curtiu o texto? Gostaria de contribuir com o crowdfunding (financiamento coletivo) do autor? Basta clicar aqui e seguir as instruções.

Fonte: Folha de S.Paulo

Clique para comentar

Envie-nos uma pauta, esclareça sua dúvida ou corrija/acrescente informações:

Últimas Notícias

Para o Início
%d blogueiros gostam disto: