Mallu Magalhães precisa estar errada, ou muito militante vai se descobrir racista – politicas.info
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Mallu Magalhães precisa estar errada, ou muito militante vai se descobrir racista

16.05.2013 - Malu Magalhães

Combate-se racismo em suas primeiras manifestações ou é preciso aguardar séculos de perseguição para reconhecê-lo?

Foto: Laura G Freitas

É um caso bem bobo. Mas que, no plano de fundo, esconde uma questão para lá de polêmica e importante. Em resumo, Mallu Magalhães foi tomada por racista ao elencar cinco negros para com ela dançar o samba “Você Não Presta“. A intenção era fazer uma homenagem, mas da semiótica saltou uma mensagem confusa que para alguns soou um insulto. Estrago feito, em participação ao vivo num programa da Rede Globo, a cantora jogou gasolina na fogueira ao replicar: “Essa é para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba“.

De imediato, a ala mais progressista das redes sociais redobrou a indignação e intensificou os ataques à mais recente polemista do Brasil. Entretanto, pouco importava quem tocava ou não samba. O que não era tolerado naquelas mensagens era algo bem mais abrangente: não existe “racismo reverso”.  Em outras palavras, nenhum branco poderia se sentir vítima de preconceito.

É, claro, uma concepção bem equivocada. Porque subentende que racismo tem sempre uma mesma origem e fim. E fazer o caminho oposto descaracterizaria o crime cometido. Por essa visão, só poderia se dizer vítima de tamanho mal quem viveu séculos de perseguição, ou mesmo de escravidão. E essa marca precisaria ser visível a olho nu, já no tom de pele, do contrário, nada feito. Com tantos filtros, só a população negra – ou, em menor grau, a indígena – teria moral para entoar tal discurso no Brasil.

O raciocínio erra ao acreditar que o racismo originou a escravidão, e não o contrário. Esta nascia de conflitos quase sempre internos ao grupo étnico. Na antiguidade ou mesmo na idade média, o transporte precário não facilitava o choque cultural, ainda que este existisse como forma de controle político, vide as alexandrias. O que não impedia que vitoriosos se arvorassem o direito de escravizarem os derrotados que sobrevivessem. Mesmo nas Grandes Navegações, o primeiro contato do europeu com o africano é pacífico, pragmático até, ainda que condenável. Afinal, dentre os produtos negociados, estava a mão de obra escrava, algo que já havia sido abolido na Europa cinco séculos antes.

Inicialmente, o preconceito se manifestava por diferenças religiosas. Só com o sucesso do colonialismo surgem teorias bizarras defendendo o europeu como um ser superior predestinado a dominar o mundo. Mas tais ideais seriam derrotados em definitivo pela catastrófica Segunda Guerra Mundial. E mesmo nela o tom de pele seria uma questão coadjuvante – os principais alvos dos supremacistas eram judeus e ciganos.

Os termos “eslavos” e “escravos” possuem a mesma origem grega. Tanto que, em inglês, uma única palavra define ambos os grupos. Mas os primeiros são povos originários do leste europeu. Logo, a condição necessária para reclamar preconceito já estaria plenamente justificada em três etnias que ocupam a Europa há séculos. Todavia, há uma questão lógica ainda mais importante: o preconceito deve ser combatido em suas primeiras manifestações ou se faz necessário aguardar séculos de perseguição para que as vítimas tenham o direito a ao menos um pedido de ajuda?

Obviamente, o primeiro caso.

Contudo, muita gente precisa insistir que Mallu Magalhães está errada. Que não existe “racismo reverso”. Que brancos não podem reclamar de preconceito. Porque, se Mallu Magalhães estiver certa, algumas dessas pessoas entrarão para as estatísticas como racistas, como indivíduos que precisariam se entender com a Justiça pelas declarações dadas. Pois insultos a brancos viraram parte da retórica da militância. A mesma militância quem ensinou – corretamente – que racismo é algo inaceitável.

Fonte: UOL

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