Segundo Delcídio, Dilma e Cardozo tentaram sabotar a Lava Jato por pelo menos 3 vezes – politicas.info
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Segundo Delcídio, Dilma e Cardozo tentaram sabotar a Lava Jato por pelo menos 3 vezes

Lewandowski e Teori Zavascki, de acordo com delator, sabiam que Dilma tentava sabotar a Lava Jato, mas nada fizeram

Imagem: Reprodução / YouTube

Enquanto o Brasil se recuperava do carnaval de 2016, Delcídio do Amaral dava mais um depoimento que se converteria em delação premiada na Lava Jato. Às 17h26 daquele 11 de fevereiro, diria ao procurador-geral da República que o governo Dilma tinha interesse na celeridade da operação, inclusive em relação a habeas corpus impetrados. Mas, na verdade, o principal objetivo do Planalto era a libertação de presos em razão da importância deles no cenário politico e empresarial.

As três investidas relatadas abaixo foram narradas pelo ex-líder do governo Dilma. São três tentativas criminosas de obstrução, todas elas capitaneadas pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, além da própria presidente da República. A trama que lograria mais sucesso envolveria pelo menos dois ministros do STJ. Mas os fatos narrados mostram que um governador, um terceiro nome do STJ e dois membros do STF sabiam das intenções da chefe do executivo – e nada denunciaram.

Primeira Investida:
Em Portugal, com Ricardo Lewandowski e Teori Zavascki

O encontro foi vazado em 09 de julho de 2015 por Gerson Camarotti, mas não citaria a participação de Teori Zavascki, o ministro que arbitrava a Lava Jato em Brasília. O detalhe só seria conhecido na delação de Delcídio em fevereiro de 2016.

Os relatos foram passados ao então senador por Cardozo, que confirmaria ser o interesse maior a ajuda dos dois ministros do STF. O grupo se justificaria à imprensa dizendo que, no encontro, discutiam o reajuste do salário dos funcionários do judiciário. Mas isso não passava de uma mentira, já que aquele era tema de responsabilidade do próprio delator.

Contudo, o papo na Europa não renderia o esperado. A conversa foi considerada “deserta” e “árida“, sem qualquer “feedback“.

Segunda Investida:
Em Santa Catarina, com João Raimundo Colombo

Frustrada a manobra em Portugal, Cardozo, sempre a serviço de Dilma, tentaria nomear Nelson Schaffer para a vaga de Newton Trisotto, o relator da Operação Lava Jato no STJ.

A proposta era presentear Santa Catarina com uma vaga no STJ em troca de Trisotto “votar pela liberação do pessoal preso“, “aliviar a mão” e ser mais “flexível” com a Lava Jato. Soltar alguns presos não seria suficiente, mas sim buscar algo de “maior amplitude no âmbito” da operação. Não seria apenas um “abafa“, mas algo profundo que pudesse “mitigar os efeitos da operação“.

Cardozo então informou a Delcídio que conversaria com João Raimundo Colombo, governador de Santa Catarina, na esperança de convencer Trisotto a embarcar na ideia. A estratégia, no entanto, se mostraria “absolutamente equivocada e desastrada“. Mas só porque Colombo e Trisotto eram de grupos políticos rivais.

Terceira Investida:
Em Brasília, com Marcelo Navarro e Francisco Falcão

Da lista tríplice surgia Marcelo Navarro, nome ligado ao ministro Francisco Falcão, do mesmo STJ. A ideia era o novo membro da corte assumir um compromisso” com a celeridade e soltar “pessoas importantes da operação Lava lato que estavam presas em Curitiba“. Para isso, Navarro ocuparia a vaga de Trisotto.

Tanto Dilma quanto Cardozo entendiam Navarro como um apadrinhado de Falcão e a questão já estava bem adiantada quando, num sábado, provavelmente o 18 de julho de 2015, Dilma chamou Delcídio por volta das 17h ao Palácio da Alvorada. A reunião consta da agenda oficial do senador cassado e se deu no jardim aos fundos da residência oficial.

Delcídio percebeu que Dilma estava em dúvida se Navarro tinha consciência do “compromisso” que estava prestes a assumir. Temia ela uma traição por parte do futuro nomeado. Foi quando o então líder do governo se dispôs a conversar com o candidato, recebendo da presidente um “sinal verde“. O compromisso era “resolver” estes casos pendentes e os mais estratégicos através da relatoria que Navarro assumiria no lugar de Trisotto. De início, liberaria as pessoas mais importantes, como Marcelo Odebrecht.

Às 18h10 do dia 22 de julho de 2015, uma quinta-feira, Navarro se encontrou com Delcídio no térreo do Palácio do Planalto em uma pequena sala lateral. O senador foi objetivo e perguntou ao candidato se sabia o motivo da conversa: “O senhor sabe o compromisso que tem, em sendo Ministro do STJ, na relatoria?” Navarro responderia: “Eu tenho ciência disso, não tenho medo dos desafios e eu não tenho medo da imprensa“.

Era um soldado se apresentando ao serviço. Navarro havia sido pautado por Falcão, que prometera a Cardozo, com aquela indicação, garantir a maioria nas votações referentes à Lava Jato.

Pouco depois, numa reunião de rotina, Dilma perguntaria se “teria problema” com Navarro, e Delcídio responderia que não, pois tivera uma conversa “olho no olho” com o candidato. A mensagem ao ministro da Justiça usou outra expressão: “Passei o recado“. Cardozo respondeu: “Eu sei que a conversa foi boa, porque o Falcão me falou“.

Delcídio então trabalharia a sabatina de Navarro no Senado, mas o processo seria ágil, com aprovação da CCJ no mesmo dia e apoio da bancada nordestina (Falcão é pernambucano e Navarro é potiguar). O senador cassado ressaltou no depoimento que não duvidava que tenha ocorrido vantagens financeiras durante a negociação entre os envolvidos.

Nomeado por Dilma em 30 de setembro de 2015, Navarro cumpriu o “compromisso” acertado, votando favoravelmente à liberação dos réus da Lava Jato. Mas, derrotado por 4 a 1, não passou de voto vencido.

Texto publicado em maio de 2016, atualizado para maio de 2017.

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