O mundo só superará a atual tensão política quando você sair da sua bolha de concordância – politicas.info
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O mundo só superará a atual tensão política quando você sair da sua bolha de concordância

20.01.2012 - Eli Pariser, autor de The Filter Bubble. "If you like this, you'll like that." Imagem por: Knight Foundation

Ou a humanidade volta a conviver com o incômodo da divergência, ou a situação seguirá piorando

Foto: Knight Foundation

O que está acontecendo com o mundo? Por que de repente ele virou essa fonte inesgotável de tensão política? O que trouxe a humanidade a este ponto?

Qualquer um que alegue ter a resposta possivelmente mente – inclusive – para si mesmo. Mas, na busca pela verdade, acho salutar que tenhamos cada um nossas próprias desconfianças. E eu, claro, tenho cá minhas dúvidas.

Pois o caminho para a verdade é repleto de dúvidas. E essa não é apenas uma frase de efeito para as redes sociais. É a lógica usada por René Descartes ao fundamentar, ainda no século XVII, aquilo que seria batizado de “método científico”.

Pelas regras do procedimento, só se encara como algo próximo da verdade o que já restou evidente. Ou seja, já foi testado em todos os cenários possíveis, mas em nenhum deles foi devidamente desmentido.

Três séculos depois, Karl Popper concordaria que o bom cientista deveria focar-se na contestação de si mesmo. Pôr à prova as próprias crenças deveria ser a principal missão do pesquisador. E só com o fracasso dessa viria o sucesso deste.

Mas tal lógica não limita-se às paredes dos laboratórios. Ela faz parte do cotidiano de basicamente qualquer ser vivo que aprende com erros. Afinal, até animais irracionais evitam repetir experiências traumáticas – vide gatos escaldados que temem água fria.

Viés de confirmação

A busca pela verdade, contudo, e infelizmente, nunca esteve imune a vícios. Um de seus maiores algozes é caçado sob a alcunha de “viés de confirmação”. Trata-se do hábito de subverter o que Popper pregava focando-se apenas em resultados que corroboram a hipótese. E é aqui que mora o perigo.

Pois a prática rende ao erro contornos de acerto. E, por facilmente confundir-se com a verdade, o resultado ganha defensores apaixonados, transformando o equívoco em algo indiscutível, quase um dogma.

Tal fenômeno é observado na sociedade há milênios. Os mais céticos enxergam nele, por exemplo, a origem das religiões – os deuses só seriam onipotentes porque os devotos ignorariam os inúmeros eventos em que tais divindades falham miseravelmente.

Mas a tecnologia vem potencializando o efeito da droga. Aos 31 anos, Eli Pariser foi um dos primeiros a perceber o fenômeno. E, em 2011, após um punhado de experimentos, lançou The Filter Bubble: What the Internet Is Hiding from You (em tradução livre, algo como “A Bolha de Filtro: o que a internet está escondendo de você”).

Bolha de filtro

Há meia década, o co-fundador da Avaaz.org surgia em livro incomodado com os algoritmos implementados com o objetivo de tornar a experiência na internet mais prazerosa. Graças à engenharia do software, qualquer conteúdo que agradasse o visitante ganhava destaque, enquanto o material mais incômodo era posto em segundo, terceiro ou quarto plano… Até chegar ao cúmulo de sumir.

Os exemplos observados partiam de sistemas de busca como Google e Yahoo, mas atingiam também redes sociais, como o Facebook ou Twitter. Nessa época, botões de “dislikes” já eram raros, os sistemas registravam apenas reações positivas, como “curtir”, “amar” ou “favoritar”. E, a depender do perfil de quem estava conectado, o conteúdo apresentado poderia apresentar um significado diametralmente oposto.

Assumidamente progressista, Pariser notou que seus amigos conservadores aos poucos desapareciam da vivência digital. E, ao consumir publicações compartilhadas por colegas, deparava-se com um exército de concordância, dando origem ao que chamou de “bolha de filtro”.

Essa anomalia apenas se intensifica com a postura dos próprios usuários, quando se dão a silenciar ou bloquear desafetos sempre que algum nível de desconforto é atingido.

O perigo, entretanto, não era o que estava dentro da câmara de eco, mas o que o sistema escondia lá fora. Pois, uma vez que ampliava-se o uso de algoritmos semelhantes, as bolhas fragmentavam-se ainda mais, e as chances de a realidade – ou a verdade – ser eclipsada apenas cresciam.

O impacto na sociedade era óbvio: indivíduos cada vez mais convictos de seus posicionamentos, estivessem eles equivocados ou não. Afinal, entregues ao viés de confirmação, eram expostos a ainda menos divergências.

Radicalização

Seis anos depois, é possível dizer que o óbvio se concretizou? Bom… Basta olhar o mundo. A discussões parecem ou não mais acaloradas? O radicalismo de lado a lado parece ou não mais evidente? Ainda que discordem mais umas das outras, as pessoas parecem ou não mais convictas de suas crenças?

É difícil encontrar exemplos que hoje soem mais moderados do que similares de tempos atrás. Donald Trump certamente tem uma voz mais radical que a de John McCain. Do outro lado, o tom de Bernie Sanders é muito mais incisivo que o dos Clinton ou Obama. No Brasil, Marcelo Freixo é muito mais radical que Fernando Haddad. E Jair Bolsonaro, que Ronaldo Caiado.

Se antes havia Al-Qaeda, agora há Estado Islâmico. Se antes havia MST, agora há black blocs. Há 25 anos, Michael Jackson usou o Super Bowl para protestar: “It don’t matter if you’re black or white“; ano passado, Beyoncé aproveitou o mesmo evento para dar visibilidade ao Black Lives Matter, grupo militante que chegaria a matar policiais americanos dali a alguns meses.

Claro, o recorte acima pode ser só mais um vício de confirmação. Mas juro que busquei lembrar-me de contrapontos que se tornaram mais moderados no período, e simplesmente não me ocorreram.

O que diabos está acontecendo com o mundo? A tecnologia facilitou o contato entre semelhantes, o que proporcionou a estes grupos menores sentirem ojeriza pela divergência dos demais. E, trancados numa rede de concordância, alimentam ódio contra qualquer discurso que sugira-lhe freios.

E o que fazer?

Sim, algo muito perigoso está em jogo. No passado, movimentos semelhantes e possivelmente menos intensos findaram em tragédias planetárias. Um desfecho parecido soa hoje ainda distante, mas a sensação de que novos passos são dados na mesma direção incomoda um tanto a mais a cada novo nascer do sol. Restando, então, uma questão vital: o que fazer?

Ao confrontar o dilema, de imediato lembrei de palavras ditas por Stephen Hawking em campanha publicitária da British Telecom, em 1993. Confesso não saber se são deles ou do redator contratado pela marca. Mas quero crer que um dos maiores físicos da história não emprestaria a voz a um texto do qual discordasse.

Originalmente, foi dito:

“For millions of years, mankind lived just like the animals. Then something happened which unleashed the power of our imagination. We learned to talk and we learned to listen. Speech has allowed the communication of ideas, enabling human beings to work together to build the impossible.

Mankind’s greatest achievements have come about by talking, and its greatest failures by not talking. It doesn’t have to be like this. Our greatest hopes could become reality in the future. With the technology at our disposal, the possibilities are unbounded. All we need to do is make sure we keep talking.

Abaixo, arrisco uma tradução:

“Por milhões de anos, a humanidade viveu como animais. Então algo aconteceu desencadeando o poder de nossa imaginação: nós aprendemos a falar e a ouvir. O discurso permitiu a comunicação de ideias, possibilitando a seres humanos trabalharem juntos para construir o impossível.

As maiores realizações da humanidade surgiram do diálogo, e seus maiores fracassos da recusa em conversar. Não tem que ser assim. Nossas maiores esperanças podem se tornar realidade no futuro. Com a tecnologia à nossa disposição, as possibilidades são ilimitadas. Tudo o que precisamos fazer é nos certificarmos de que continuemos conversando.

É por demais irônico, para não usar termos mais dramáticos, que justo a tecnologia seja a principal suspeita de nos impedir de “continuar conversando“. Mas será que, como sugeriu Hawking, nós nos certificamos em suficiência?

Enfim…

O que fazer? Voltar a conversar. Voltar a confrontar o desconforto da discordância. Ouvir, ainda que nada consigamos absorver das palavras ditas. Desbloquear o divergente, seguir novamente o contraponto, termos a consciência de que é enorme o risco de não sermos os donos da razão, e colocarmos à prova justamente as nossas maiores crenças.

Do contrário, prepararmo-nos para uma situação ainda pior. E ela já está péssima.

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