Como o assassinato de JFK ajuda a explicar os ataques sofridos pela Lava Jato – politicas.info
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Como o assassinato de JFK ajuda a explicar os ataques sofridos pela Lava Jato

Atacar a credibilidade de investigadores é uma prática antiga dos criminosos mais poderosos

Foto: University of Michigan

Jim Garrison e sua força-tarefa tocavam uma investigação cautelosa até que o procurador achou por bem aproveitar o domingo de Páscoa para interrogar Clay Shaw, um empresário de boa reputação em Nova Orleans. Dias após as seis horas tensas de conversa, a imprensa partiu para cima do Ministério Público cobrando explicações sobre uma nova investigação a respeito do assassinato de JFK. É quando, no clássico de Oliver Stone, um homem apresentado como “senhor X” surge dando conselhos ao personagem de Kevin Costner.

O mistério talvez nem fosse necessário. Um ano depois, em Beyond “JFK”, o “senhor X” é apresentado como Leroy Fletcher Prouty, um coronel aposentado que fizera parte da cúpula do governo Kennedy. Ele surge no documentário de 1992 confessando ter chefiado as “operações especiais” do Governo Federal. Em off, sua voz entrega que tudo não passava de um eufemismo para o apoio militar a operações clandestinas da CIA em todo o planeta.

Interpretado por Donald Sutherland, é Prouty quem aconselha Garrison a tornar público o que já descobriu. O investigador pede um testemunho, no que o informante nega: “Eu seria preso e silenciado. Talvez enviado a um hospício“. Mas estimula o caso a ir adiante: “Já teriam te matado, mas a mídia o destacou. Agora, irão tentar destruir sua credibilidade e já há muitos nessa tarefa“. O militar aposentado entende que fazer barulho é a única saída.

São memórias escritas em 1988 sobre um caso que correu o mundo nos anos 1960. Mas pode servir ao Brasil de 2017. Porque a lógica é semelhante.

A Lava Jato cavou o próprio destaque junto à imprensa. Seus procuradores tornaram-se grandes demais para serem abatidos, seja pela transferência para praças longínquas, seja por alternativas bem piores, como assassinatos que lembrem acidentes. A alternativa ao poder é atacar-lhe a credibilidade.

Nesta guerra verbal, o jornalismo é uma arma que serve a ambos os lados. Mais até aos vilões. Por exemplo, quando provoca o Ministério Público a se manifestar sobre palestras protagonizadas por Deltan Dallagnol. Por trás da pauta despretensiosa, algo que já havia escapado em outros veículos: a Lava Jato estaria fazendo dinheiro com a fama – uma acusação ridícula, mas eles não possuem alternativas muito melhores.

Jim Garrison morreu de câncer em 1992, aos 70 anos. Nos registros da imprensa, passou à história como um procurador lunático que acreditava em teorias conspiratórias. Mas a literatura e o cinema permitiram-lhe descansar como um servidor público que se levantava contra a resposta pouco crível do sistema – a versão pela qual o presidente dos Estados Unidos caíra por obra de um jovem de 24 anos que atuara só.

Em quem acreditar? Na versão que faz mais sentido.

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