Como a esquerda usa o “fact-checking” para controlar a informação que circula na internet – politicas.info
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Como a esquerda usa o “fact-checking” para controlar a informação que circula na internet

Jornal sobre mesa ao lado de copo de café

Nas mãos e locais errados, o fact-checking pode sim virar um instrumento de censura

Foto: Markus Spiske

É uma tese recente e complicada. E, num primeiro momento, pouco crível. Mas uma breve organização nas informações ajuda na compreensão. A busca no Google Brasil a respeito do termo retorna o site da Pública. De acordo com a “agência de reportagem e jornalismo investigativo“, fact-checking seriauma checagem de fatos, isto é, um confrontamento de histórias com dados, pesquisas e registros“.

No Brasil, a prática já era perceptível na campanha presidencial de 2014. Veículos como Estadão e O Globo criaram seções especiais para checarem publicamente as informações apresentadas pelos candidatos nos debates, em especial os televisionados. Na campanha municipal de 2016, ao menos nas principais capitais, o trabalho se intensificou e o fack-checking ganhou vida própria, com projetos como Lupa, Aos Fatos e até mesmo o e-Farsas, um blog antigo de pesquisas de boatos, se somando à iniciativa.

De fato, com tanta informação, e principalmente com tanta desinformação, como criticar o trabalho de profissionais que se dispõem a lutar pela verdade em ambiente virtual?

Em primeiro lugar, lembrando que por trás da checagem há um ser humano com tudo o que há de complexo na humanidade. Ele tem suas crenças, suas certezas, suas dúvidas e até suas bandeiras. E, por mais que haja algum esforço, dificilmente conseguirá entregar ao trabalho a neutralidade de uma máquina.

O principal, contudo, é a natureza do discurso político. Por mais que dados sejam sacados a todo momento, não se trata de uma ciência exata. Números podem ser manipulados, a forma como a pesquisa foi realizada precisa ser levada em conta, e o debate permite todo tipo de figuras de linguagem, que se distanciam da exatidão das planilhas para que a mensagem seja melhor compreendida. Em outras palavras, por mais neutro que se queira o “fact-checker”, ele é só mais um dentre tantos intérpretes da realidade, fazendo de sua neutralidade apenas uma peça de autopromoção.

A campanha americana de 2016

Na última campanha presidencial americana, a parcialidade do fact-checking era tão evidente que até os próprios candidatos criavam seus times. O resultado da checagem da campanha de Hillary Clinton, por exemplo, segue no ar até o momento da redação deste texto. E o objetivo não era outro: provar que o adversário faltava com a verdade.

Mas o que deveria ser a campanha da informação, com veículos explorando a imagem de planilheiros incansáveis, findou na campanha da vergonha. As manchetes antecipavam a vitória de Clinton, por vezes com chances superiores a 99%, mas, como todos bem sabem, deu Donald Trump.

E então? Como explicar o fiasco da cobertura jornalística?

Respostas variadas sem nenhuma fonte confiável foram exploradas aos montes. Disseram que o eleitor republicano sentiu vergonha de declarar o voto em Trump, que a Rússia teria interferido no processo, bancaram uma recontagem de votos – o que findaria, vejam só, ampliando a votação do vencedor – e, principalmente, acusaram o eleitor de ter se deixado ludibriar por notícias falsas que circulavam nas redes sociais.

Qual entidade assinou o estudo que referendou uma gigantesca matéria sobre o tema aqui no Brasil? O site de entretenimento BuzzFeed.

Segundo um estudo do site BuzzFeed, as 20 notícias falsas sobre a eleição americana com maior engajamento no Facebook nos três meses que antecederam a votação geraram mais engajamentos (8,7 milhões) que as 20 notícias reais com mais reações publicadas por grandes veículos (7,3 milhões).

O BuzzFeed brasileiro chegou a resultado semelhante em relação a notícias sobre a Lava Jato publicadas em 2016: as dez falsas com mais engajamento no Facebook (3,9 milhões) superaram as dez verdadeiras (2,7 milhões) –no “top ten” das notícias falsas, há quatro da turma de Poços, três das quais do finado Brasil Verde Amarelo e uma da extinta Folha Digital.”

A crença da imprensa na ideia era tão cega que chegou-se a defender que uma cidade de 43 mil habitantes na Macedônia teria sido primordial para a eleição do homem mais poderoso do mundo.

Pressão sobre o Vale do Silício

Imediatamente, as empresas de comunicação partiram para cima das de tecnologia cobrando destas a criação de filtros contra notícias falsas, o que, por si só, contraria o princípio da neutralidade dos algoritmos de busca. Afinal, por motivos que não vêm ao caso, o pesquisador pode estar justamente querendo encontrar a informação equivocada. Mas as principais marcas cederam. O Facebook ativou uma espécie de carimbo para ser aplicado nas “fake news”. Quanto ao Google, a gigante de buscas criou um selo de verificação de fatos.

Mas com quem ficaria o poder para bater o martelo e dizer que uma notícia seria falsa ou não? Com os fact-checkers.

Trata-se de um marco histórico da curta vida da internet. Se antes havia dúvida sobre eventuais e condenáveis interferências humanas nos resultados dos sistemas de buscas e dos valiosos algoritmos das redes sociais, ela agora era propagandeada pela imprensa como uma conquista. Porque, claro, era uma conquista – para a imprensa.

O grande ministério da verdade

Hoje, num debate virtual com tantas narrativas, leituras, pontos de vista e dados (manipulados ou não), vigora um tribunal da verdade tocado por projetos como Aos Fatos, Lupa e Pública. Mas quem são estes juízes?

Justo o primeiro resultado da busca é o mais complicado. A Pública é um “think tank” que tem por objetivo pautar a imprensa com ideais progressistas. É um trabalho muito bem feito, competente, sério… Mas tem viés, tem uma agenda ideológica, por vezes partidária, a cumprir. Seu conselho apresenta grandes nomes da esquerda nacional, como Leonardo Sakamoto e Eliane Brum. Dentre os financiadores, há um punhado de organizações internacionais mais interessadas numa pauta global do que nas necessidades locais do Brasil. E seu conteúdo é constantemente reverberado em sites militantes alinhados com a agência.

É importante frisar: nada disso é ilegal. Mas a Pública é parte interessada no resultado da checagem. Há temas dos quais ela luta pelo avanço, enquanto de outros ela espera a contenção. Nessa situação, qualquer bom juiz se diria impedido de participar do julgamento.

O problema da Lupa não é tão diferente. É ligada ao grupo Folha, um jornal que emula alguma imparcialidade, principalmente em seu time de colunistas, mas já não consegue esconder que pende para o mesmo lado da Pública. Se, até os instante finais, negava ver motivos substanciais para defender o impeachment de Dilma, contra personagens como João Doria implica até com o não uso do cinto de segurança.

Do trio, o que soa mais independente é o Aos Fatos. Tai Nalon, sua diretora executiva, esforça-se para fazer um trabalho transparente e dosado. Mas sua equipe menor não conseguiu evitar alguns deslizes que chegaram a viralizar na última campanha – ainda que, de imediato, tenham buscado corrigir o erro.

“Fact-checking é censura?”

Numa resposta nada simpática, contatado para explicar as fontes de informações veiculadas em suas redes sociais, o Movimento Brasil Livre mandou a Pública se virar. E foi além. Num reducionismo de defesa bem complicada, sentenciou: “fact-checking é censura!”

Será mesmo?

Ora… Se impedir a publicação de livros for censura, se impedir a veiculação de músicas for censura, se impedir discurso em público for censura, natural achar que dificultar a veiculação de informações em redes sociais e o acesso a elas por meios de sistemas de busca também seja. E, na mão de profissionais com militância tão evidente, é isso o que fact-checking de fato lembra. Somado ao contexto das recentes derrotas eleitorais da esquerda, a pressão contra o Vale do Silício parece apenas uma etapa de um plano bem sucedido.

A checagem de fatos é praxe do jornalismo. É estranho e sintomático que agências se vendam como especialistas em algo tão básico na profissão. Sem querer, entregam que, na prática, a teoria é outra. E que as redações reverberam muita desinformação sem checagem. Em especial, as mais convenientes. Aquelas que fortalecem o discurso que mais norteia o setor. Um discurso que tem cor, bandeira… E até selfie.

Não é errado checar fatos. Não é errado fazer fact-checking. Não é errado ter projetos especializados nisso. O erro está em tentar criar um controle da mais livre invenção da humanidade, a internet. Em colocar nas mãos de jornalistas — profissionais que andam com a credibilidade cada vez mais questionável — o poder para definir o que é verdade e o que é mentira na web. Eles podem e até devem se esforçar nessa missão, mas em seus veículos. Não em motores de busca. Não em redes sociais. A liberdade de expressão agradece.

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