Com o argumento “fake news”, a imprensa busca uma arma para censurar veículos alternativos – politicas.info
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Com o argumento “fake news”, a imprensa busca uma arma para censurar veículos alternativos

Imprensa. Foto: Pixabay.

Mas o tiro vem saindo pela culatra, e políticos usam a mesma estratégia para atacar a imprensa

Foto: Pixabay.

Em 5 de novembro de 2016, o Independent publicou uma manchete que dava a Hillary Clinton mais de 99% de chance de vitória. De acordo com a pesquisa, a candidata democrata conquistaria 312 colégios eleitorais, ou 42 acima dos 270 necessários. Apesar da previsão “otimista”, o jornal britânico não estava isolado. O FiveThirtyEight, que antecipara as vitórias de Barack Obama, também apostava no sucesso da ex-primeira dama. E, até os minutos finais, o NY Times atribuía à adversária de Donald Trump “apenas” 85% de chance.

Todavia, o 8 de novembro de 2016 rendeu 304 colégios eleitorais ao candidato republicano, desmoralizando toda a imprensa americana, europeia e latina, as mesmas que assumiam como impossível uma vitória de Trump.

O que fazer diante de tamanho vexame?

Basicamente o jornalismo terceirizou a culpa. No primeiro momento, deturpou desculpas dadas por institutos de pesquisa, que reconheceram o atraso dos métodos utilizados nos levantamentos, uma vez que, por motivos variados, seus pesquisadores não encontraram o eleitor republicano. O que disseram os jornalistas? Que o conservador americano sentiu vergonha de assumir o próprio voto aos Institutos de Pesquisa.

Não, não faz sentido.

No segundo momento, o alvo foi uma suposta interferência russa. Hackers teriam “invadido” a eleição americana e impedido Barack Obama de fazer a sucessora. As urnas eletrônicas de Wisconsin foram questionadas, e Jill Stein, no papel de linha auxiliar de Clinton, bancou a recontagem. O resultado? Na segunda rodada, Trump somou ainda mais votos.

O argumento “fake news” aparece somente como terceira grande desculpa explorada pela imprensa para justificar o fiasco de seus analistas. O Google Trends flagra o fenômeno. Era uma expressão adormecida até dez dias após a eleição de Trump.

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Mas, afinal, as notícias falsas estão de fato alterando os rumos políticos do mundo?

A resposta pode surgir de uma segunda questão: em qual fonte a imprensa se baseia para cobrar das empresas de tecnologia a implementação de filtros contra as “fake news”?

Com quatro longas páginas, uma matéria de 19 de fevereiro de 2017 tenta, na Folha, dar um ar de seriedade à farsa. Mas apenas quatro estudos surgem no texto jogando uma luz na questão.

Dois deles renegam a possibilidade. O primeiro, solicitado pelo próprio jornal à USP, conclui que “os sites de notícias falsas são minoritários no ranking das com maior engajamento“. O outro partiu do Birô Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos, concluindo que “as mídias sociais tiveram papel ‘importante, mas não determinante’” na eleição americana.

Quanto aos que confirmariam a tese, o primeiro veio dos Estados Unidos, e serviu de molde para o segundo, replicado pela filial brasileira da marca. Qual marca? A BuzzFeed, uma produtora de conteúdo mais preocupada com o entretenimento do que com o rigor científico.

O método, em si, revela a fragilidade do levantamento. A publicação simplesmente confrontou as 20 notícias reais mais compartilhadas no período eleitoral com as 20 notícias falsas mais reverberadas. E concluiu que o segundo grupo teve um alcance maior.

Ora… Para entender quão pequena era a amostra, basta lembrar que o próprio BuzzFeed americano publicou 249 notícias só nos últimos 7 dias. Mas mesmo o alcance maior pode ser compreendido simplesmente pela lógica. Porque notícias verdadeiras são replicadas em todos os veículos que topam defendê-las disputando, assim, uma mesma audiência. Notícias falsas, contudo, fecham-se nos sites obscuros que as mantêm no ar. Isoladamente, e pela falta de “concorrência”, atingem um maior compartilhamento. Mas coletivamente, e como comprovado pelos estudos mais sérios, não justificam o barulho da imprensa.

E por que a imprensa faz tanto barulho?

O primeiro motivo já foi explicitado mais acima: o argumento “fake news” não só redimiria os analistas políticos das previsões equivocadas contra Trump, como teria na própria imprensa um remédio para a doença.

Mas há mais mistérios entre o céu e a terra do que desconfia a opinião pública.

Ao pressionarem as empresas de tecnologia para que filtros sejam implementados no sentido de impedir a disseminação de determinados conteúdos, a imprensa conquista uma ferramenta que lhe garante alguma reserva de mercado. No Brasil, por exemplo, como informado pela própria Folha, uma espécie de “selo verificado” para notícias apuradas será distribuído por três agências: Lupa, Aos Fatos e Pública.

A primeira – fica claro ao visitar-lhe o site – possui ligação com o grupo Folha. O que finda dando a tudo um ar de disputa mercadológica. Mas o problema maior é o ideológico.

Pois a Pública é um think tank progressista que tenta, no Brasil, emplacar o máximo de pautas esquerdistas. Não há problema em manter tal viés, mas é questionável a opção por tamanha militância como árbitra de jogo tão disputado, ainda mais quando o investimento vem de organizações estrangeiras. O conselho da agência traz nomes de jornalistas engajados como Eliane Brum e Leonardo Sakamoto. Este último surge na matéria da Folha como defensor de “uma convenção global para regular a circulação de notícias na internet e a eventual responsabilização por excessos“. Isso pode facilmente ser entendido como censura prévia.

Que tipo de dificuldade esse trio de agências criará para que novas publicações recebam o selo de verificação do Google? Esses obstáculos serão os mesmos para todos ou um veículo de viés igualmente esquerdista terá algum favorecimento?

São questões que saltam à mente de quem percebe o risco da iniciativa.

Tiro pela culatra

É fácil imaginar como novos projetos seriam afetados financeiramente. Pois os investidores optarão por exibir seus anúncios em publicações com tão valioso selo. Se tal graça for dificultada por mera politicagem, as chances de sucesso serão reduzidas drasticamente. E a vitória será dada à mesma imprensa que garantia, com mais de 99% de certeza, que Hillary Clinton estaria hoje presidindo os Estados Unidos.

Se há alguma esperança, ela está no saldo bancário dos CEOs do Vale do Silício. A experiência ensina que a soma de obstáculos é uma grandeza inversamente proporcional às margens de lucro. Tantos filtros são um desestímulo aos criadores de conteúdo. E, na internet, conteúdo vale ouro.

Sonegar informação ao usuário é deixar de vender aquilo que ele está disposto a comprar. E uma hora a conta chegará. Na web, isso pode se dar até mesmo em tempo real.

Fato é que o feitiço rapidamente voltou-se contra o feiticeiro. Já em um dos primeiros embates, Donald Trump acusou a CNN de disseminar “fake news”. Com argumento semelhante, Nicolás Maduro censurou a rede nas fronteiras venezuelanas. No Brasil, Aécio Neves indicou em artigo que está disposto a encampar o argumento se alguma notícia lhe desagradar. Em outras palavras, a arma da imprensa contra veículos alternativos está sendo explorada por políticos contra a imprensa – sempre com o pretexto de combater a desinformação, claro.

Não era um movimento de difícil previsão. Certamente era mais óbvio que uma vitória de Trump. Mas não dá para cobrar tamanha perspicácia de um setor que, para falar ao mundo, fecha-se cada vez mais em bolhas.

O mais deprimente, contudo, é constatar que, sob o pretexto de defender a verdade, a imprensa une forças para calar vozes que ousam discordar dela. E, como verificado na eleição americana, tantas vezes apontar-lhe os erros.

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